La Bombonera, o menor dos maiores estádios do mundo

Posted: February 16, 2014 in Uncategorized

La Boca se trata de um bairro portuário, nomeado em função da foz do rio. Espaço para construir sempre foi um problema nessa área central da cidade, assim como ocorre em tantos outros centros históricos de grandes cidades no mundo. Some-se a isso o fato de o Club Atlético Boca Juniors, à época, não ter dinheiro para adquirir um grande terreno para construir. O clube, antes de achar sua casa definitiva, jogou em diversos campos, alguns de outros clubes próximos, outros em bairros demasiado distantes para que seus torcedores pudessem comparecer, até enfim conseguir um terreno na Boca. O grande desafio para os participantes do concurso aberto em 1937 foi o tamanho do terreno, de aproximadamente 130×200 metros. Podem ser usadas como parâmetro comparativo as dimensões ocupadas por alguns estádios conhecidos: a Ilha do Retiro (do Sport Club do Recife) possui aproximadamente 165×230 metros; a Ressacada (do Avaí, em Florianópolis), mede em torno de 150×215 metros; com o agravante de que os dois estádios brasileiros têm capacidade para 35000 e 15000 torcedores, muito abaixo do que se propunha para o estádio do time de maior torcida da Argentina. O projeto vencedor do concurso foi o do escritório Bes-Delpini-Sulcic.

O Arquiteto

O esloveno Viktor Sulcic nasceu muito antes de seu país. À época, o local onde nasceu Viktor pertencia ao então Império Áustro-Húngaro, e depois tornou-se parte da Iugoslávia. Sulcic se formou em arquitetura em Trieste, na Itália, e acabou fugindo para a América do Sul assim que Mussolini começou a construir o fascismo. Ao chegar à Argentina, o arquiteto não teve reconhecido seu diploma de arquiteto, já que o campo de estudos que incluía arquitetura na universidade onde se formou eram as belas-artes, o que não condizia com o currículo de arquitetura na Argentina. Por esse motivo, Viktor associou-se a um jovem e ousado engenheiro chamado José Luiz Delpini. Juntos ao geômetra Raúl Bes eles formaram um escritório responsável por diversas obras importantes na Argentina, como o Mercado Abasto de Buenos Aires.

O Projeto

Foi Sulcic quem veio com a idéia de verticalizar o estádio para acomodar a multidão. A idéia inicial era que houvesse, na verdade, quatro andares de arquibancadas sobrepostos, uma muralha formada por arquibancadas – e por uma torcida vibrante e apaixonada – circundando o gramado. Os dois andares superiores só foram erguidos anos após a inauguração, com a Bombonera já recebendo jogos, e optou-se por parar nos três anéis, dando por encerrada a obra. Não seria possível ainda, devido ao tamanho do terreno (aproximadamente 130×200 metros), construir arquibancadas dos quatro lados do campo. Propôs-se, então, que um dos lados fosse ocupado por um prédio de camarotes. A forma desse setor destoa formalmente dos setores de arquibancadas, chegando a não parecer pertencer à mesma construção. Felizmente, há os torcedores para projetarem para fora do prédio, além de si mesmos, suas bandeiras e faixas, integrando melhor as duas partes.

 

José Luiz Delpini foi um pioneiro do concreto armado na Argentina, e obteve com a Bombonera um resultado sensacional. Além da estrutura que permite os três anéis sobrepostos sem causar pontos cegos decorrentes de tetos baixos ou pilares no meio das arquibancadas, a forma das fachadas do estádio segue a forma da estrutura e das escadas de acesso, obtendo um resultado que atribui à Bombonera ainda mais identidade.

Outro aspecto interessante da Bombonera é a sua inserção no contexto. A estrutura exposta, cheia de pilares, vigas e escadas entrelaçados, causa uma sensação interessante ao se relacionar às ruas estreitas e ao emaranhado de construções nessa região central da cidade; e as cores vivas (sobretudo das arquibancadas, que possuem as cores do escudo do time) condizem com a característica marcante das cores vivas usadas nas fachadas do bairro.

O apelido da Bombonera tem uma história curiosa. Viktor Sulcic, enquanto estava no processo de projeto do estádio, teria ganhado uma caixa de bombons que achou muito parecida com a volumetria do projeto. A partir daí passou a referir-se ao estádio como “Bombonera”, apelido que fica até hoje.

A arquitetura de estádios de futebol é uma área extremamente complexa, pois possui uma infinidade de variáveis. Além do programa de necessidades, conceito, estrutura, implantação, etc, etc, trabalha-se ainda com conceitos muito abstratos como a paixão do torcedor. Trata-se de uma área muito singular da arquitetura, onde por vezes é mais importante favorecer a grande festa do torcedor em vez do conforto e da circulação, por exemplo. Isso vai contra muito do que aprendemos nos nossos estudos, mas é importante que se saiba quem é o usuário. E em quase toda a América do Sul o usuário é um sujeito fanático, apaixonado, que às vezes viaja horas dentro de um ônibus lotado só pra ver o seu time e depois voltar, e pra ele tanto faz sentar numa cadeira ou no concreto duro: ele quer é ter lugar garantido pra participar da festa. Tome-se por exemplo a desaprovação geral diante da modernização dos estádios do Brasil – a implantação de assentos fixos, que causa uma redução da capacidade do estádio, por exemplo, não agrada à imensa maioria dos torcedores – inclusive a este que vos escreve.

Se formos analisar a Bombonera sob essa ótica da paixão irracional do torcedor, ela é um enorme sucesso. Em alguns setores o estádio possui assentos, para aqueles que primam pelo conforto; em outros setores, contudo, persistem as arquibancadas de cimento. A manutenção dos três anéis que são a marca registrada do estádio do Boca Juniors também está de parabéns, em tempos em que a FIFA recomenda, em nome da boa visualização do campo, que haja apenas um anel contínuo de arquibancadas. A manutenção da pequena distância entre as arquibancadas e o campo também trabalha a favor da festa da torcida.

La Bombonera está longe de ser um dos estádios mais modernos do mundo. É praticamente o mesmo desde que sua construção foi encerrada, há mais de sessenta anos. Possui alguns problemas, desde formais (a aparência de “intruso” do prédio de camarotes) como funcionais (a circulação nas ruas em volta e dentro do próprio estádio está longe de ser ideal). E ainda assim é um dos estádios mais espetaculares do mundo. A solução ousada para o pequeno espaço, a relação com o entorno, a forma, e a maneira como valoriza a paixão do torcedor (mais mérito de quem não fez reformas de modernização do que de quem projetou), tudo isso faz da Bombonera um ícone da arquitetura de estádios.



Estádio visto pela “fresta” entre as arquibancadas e os camarotes

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